terça-feira, 8 de março de 2016

Opinião: Os reflexos da saída da RBS em Santa Catarina

Giorgio Guedin

(Adendo às 12h30: Fui alertado pelo Edu César, do Papo de Bola, sobre a possibilidade do Boni assumir a programação da futura emissora)

Mesmo com a não atualização constante do SulBRTV, fui interrogado por muitas pessoas que acompanhavam o blog desde os “tempos áureos”, nos últimos dias, sobre o que seria a principal notícia que remete à comunicação do sul do Brasil nos últimos anos.

Dada em primeira mão pelo jornalista Paulo Alceu que a Rede Brasil Sul (RBS) em Santa Catarina seria vendida, no mês passado, o tema provocou um alvoroço nos bastidores da comunicação. Apesar da nota do Grupo RBS desmentindo, lançada poucas horas depois do jornalista soltar a informação, funcionários do grupo afirmarem que não sabiam de nada, ou que se tratava de uma “barrigada” (termo jornalístico quando se divulga uma informação errada), a primeira reação que tive sobre o caso foi algo como diria o ditado “tem caroço nesse angu”. E teve. 

Conversei com algumas pessoas que confirmaram a investida. Outros jornalistas também falaram algo neste sentido, além em sites, como o do jornalista gaúcho Felipe Vieira e do ex-diretor de jornalismo da RBS TV, Claiton Selistre, que hoje comanda o Portal Making Of, que consolidaram a informação divulgada por Alceu durante o último final de semana. Até que nesta segunda-feira (07), o anúncio, de forma oficial, foi feito pelos representantes dos novos e antigos donos na sede do Diário Catarinense em Florianópolis. O Grupo RBS em Santa Catarina — RBS TV em Florianópolis, Joinville, Blumenau, Criciúma, Chapecó e em Joaçaba (Centro-Oeste) na TV aberta, TVCOM em TV fechada, Rádio Itapema em Florianópolis e Joinville, Rádio CBN Diário em Florianópolis, Rádio Atlântida em Florianópolis, Criciúma, Joinville, Blumenau e Chapecó, além dos impressos Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina, A Notícia e Jornal de Santa Catarina (apesar de não ser anunciado oficialmente, devem estar incluídos as plataformas digitais das mídias, além dos portais G1 e GE, que eram controlados pela RBS TV) — foi vendida para os empresários Lírio Parisotto e Carlos Sanchez. 

O empresário Lírio Parisotto é conhecido por namorar a ex-modelo Luiza Brunet, além de ser lembrado em Santa Catarina como o principal acionista privado da Celesc, a principal companhia elétrica do Estado, é o fundador da Videolar, dono da petroquímica Innova, controlador da Usiminas, além de ser considerado um dos homens mais ricos do Brasil. Já Carlos Sanchez é um empresário do ramo farmacêutico e controla o Grupo NC. Parisotto ficaria com 25% das ações, já 75% ficam com Sanchez. 

A venda da RBS em Santa Catarina precisa ser vista por diversos aspectos. Não há um motivo oficial (e penso, eu, que nunca será divulgado), porém uma linha diz que a venda ocorreu por causa da Operação Zelotes, deflagrada pela Polícia Federal no ano passado e que trata da corrupção no Conselho de Administração de Recursos Fiscais (CARF), que investiga sonegação fiscal de pessoas físicas e empresas, entre elas a RBS. Conforme o jornalista Claiton Selistre publicou em uma rede social, se o grupo gaúcho tiver que pagar pelo rombo fiscal, sobraria cerca de 300 milhões, do valor estimado da venda, que circula no valor de R$1 bilhão. Tal esquema teria azedado as relações com a Globo. 

Novo(s) nome(s)

Voltando para o aspecto mais televisivo, como seria a nova emissora? Em entrevista ao RBS Notícias  em Santa Catarina, Mario Neves, que já controlava o setor televisivo no estado barriga-verde, será o presidente durante a transição (que deve durar cerca de dois anos). Ele afirmou que manterá o quadro atual de funcionários. Após isso, a dúvida que cerca é: qual seria o novo nome? O nome RBS não deve continuar, já que remete ao conglomerado gaúcho, o nome Globo apenas se refere a emissoras próprias da emissora carioca. Há uma pequena corrente que afirmou que o nome poderia ser "Vanguarda", o mesmo da afiliada da TV Globo no interior de São Paulo, que pertence ao Boni, um dos principais nomes da TV do Brasil. Segundo o Portal Making Of, essa informação — e que a negociação teria uma supervisão de Boni — foi negada. Mas, conforme publicado nesta terça-feira (08) no Portal Notícias da TV, do jornalista Daniel Castro, Boni desmentiu os novos donos e confirmou o interesse da nova cúpula para assumir a direção da emissora. Uma reunião estaria marcada para a próxima semana. Cresce ainda mais a dúvida. Alguns jornalistas mais experientes especulam (desejam) a volta de antigos nomes das emissoras, como a TV Coligadas em Blumenau ou a TV Eldorado em Criciúma. Se a ideia é “fincar território" (apesar de já estar “fincado”), me agrada a ideia, mas creio que isso seja distante e com viés basicamente nostálgico. 

Além do nome, os programas e jornais da emissora deverão trocar de nome e, imagino, outras Jornal do Almoço, RBS Notícias são marcas da RBS TV. Vai ser difícil chamar o JA de SCTV, conforme o padrão da TV Globo na maioria das afiliadas (RJTV, ParanáTV). O nome Jornal do Almoço vai permanecer por um bom tempo na mente dos catarinenses. Outros programas devem ser extintos em Santa Catarina. É o caso do programa Galpão Crioulo, o mais tradicional programa televisivo de cultura gaúcha. Regiões que foram colonizadas por gaúchos, como o oeste de Santa Catarina, e localidades fronteiriças com o RS terão um forte impacto com a venda, devido aos laços culturais com o estado vizinho. Inclui no panorama de programas com possibilidade ser extintos: o Mistura, Campo e Lavoura e Vida e Saúde, que, com exceção do Mistura, eram produzidos em conjunto nos dois estados.

Outro aspecto a ser considerado deverá ser o rompimento do fluxo de profissionais que trabalharam em empresas gaúchas do Grupo RBS, que migram para Santa Catarina. Muitos catarinenses perguntam porque há muitos gaúchos nas empresas da RBS em Santa Catarina. A resposta é simples: o plano de carreira do grupo permite e facilita a transição e todo o processo de mudança, admissão, demissão, transferência, é centralizado em Porto Alegre.

Identidade

Em uma entrevista a uma rádio, o jornalista Laudelino José Sarda, um dos mais respeitados em Santa Catarina, afirmou que o Grupo RBS, quando entrou em solo catarinense até os dias de hoje, não criou uma identidade, um laço forte estadual. Ao contrário do que aconteceu no Rio Grande do Sul, seja para o bem ou para o mal. Eu compartilho deste pensamento. E a "culpa" não é do grupo gaúcho, e sim da característica de Santa Catarina. Cada região possui uma identidade própria. Seja no aspecto geográfico, histórico e econômico (já escrevi algumas vezes no blog, como acontece no futebol). Resta agora saber se o novo grupo, sendo que nenhum dos dois empresários tem origens catarinenses e que ambos não têm ligação com a comunicação de massa, irá tentar mudar esse panorama ou continuará como está. Eu imagino que deverá vir uma forte campanha de marketing sobre o novo nome, durante esse período de transição, talvez novos nomes dos produtos, mas a essência do que a RBS teve até agora deverá continuar, já que o diretor que vai atuar no período de transição já era da casa. 

Resta agora o Grupo RBS cuidar de seus negócios em território gaúcho, conforme a própria empresa descreveu em nota, que não passam por um bom momento em grande parte dos veículos de comunicação. Na esfera da TV, é sabido por fontes ligadas à emissora, que em praticamente todas as emissoras do interior, uma a duas equipes de jornalismo foram extintas (leia-se repórter e cinegrafista) durante o mês de fevereiro, além da extinção de cargos de coordenador de telejornalismo em pelo menos três praças: Rio Grande, Pelotas e Cruz Alta. Foi criado ainda  o “JA ideias”, um quadro no Jornal do Almoço que debate um tema específico, muito possivelmente para suprir a extinção das equipes de reportagens. Mas isso é assunto para outro momento. O dia 7 de março de 2016 será considerado uma data importante na comunicação catarinense. Se para bom ou para ruim, só o tempo irá dizer. 

Nota: Faltou muitos pontos referentes ao negócio para ser comentado, mas o pouco tempo livre que me resta me permitiu redigir este texto. Como sugestão deixo o link do artigo opinativo do professor da UFSC, Rogério Christofoletti, publicado no site do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina.

3 comentários:

Marçal disse...

Giorgio, por favor comente sobre a nova fase das emissoras do interior. O bloco local do Jornal do Almoço em várias praças virou uma encheção de linguiça só. Em Uruguaiana não tem mais reportagem externa na maioria dos dias. Todo o tempo é ocupado por entrevistas monotonas sobre assuntos que não interessam nem um pouco.

Pelo que vi no catalogo de videos do interior no G1, só se salvaram Passo Fundo, Caxias do Sul e Pelotas

Santa Maria nem tanto. ainda tem reportagens externas, mas o tal do JA ideias chega a durar 8 minutos!!!

As emissoras do interior praticamente acabaram! Não tem mais bloco local do RBS noticias e agora o do Jornal do almoço virou uma encheção de linguiça braba!

Vamos ver se as coisas voltam ao normal quando essa crise toda passar.

Luis Fernando Machado de Souza disse...

Concordo contigo Giorgio. Acho certo que o termo JA vai lembrado por muito tempo, apesar da venda da RBS/SC para dois empresários.

RC Pierangeli disse...

A emissora Catarinense terá um novo nome e logomarca, a partir deste primeiro trimestre de 2017.
O RBS Notícias como já é bem obvio de se imaginar, leva consigo o nome da emissora e infelizmente terá de ser extinto para dar eu seu lugar novo telejornal local, com nova denominação/nomenclatura.
Torcemos que o Jornal do Almoço e Bom Dia Santa Catarina não sofram alterações.